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10 de fev. de 2017

Extraordinário é Deus! O servo de Abraão

Permita-me contar uma história:
Era uma vez um homem que acabara de ficar viúvo.
Seu filho passou a ser órfão.
A mulher que morreu era muito importante.
Ela era motivo de alegria daquela casa.
Naqueles tempos o casamento era arranjado e definia aliança entre as famílias.
O viúvo que já estava velho chamou o servo dele, o que poderia representá-lo melhor e disse:
Ei, venha aqui. Tenho uma tarefa muito importante e só pensei em você para executá-la.
Tenho que encontrar uma noiva para o meu filho mas não pode ser gente desta terra.
O velho tinha feito uma longa viagem e já tinha saído de de Ur com 75 anos (Gn 12.4).
Quando o órfão nasceu seu pai já tinha 100 anos (Gn21.5) e sua mãe (Gn 17.17).
Fato é que o velho que já estava longe de casa a tanto tempo pediu que o servo encontrasse uma noiva para o seu filho lá nas terra de seu pai. Fez isso para que a sua nora fosse, de alguma forma,
parente ou, na pior das hipóteses, diferente dessa gente com quem ele convivia.
O servo aceitou o desafio mas, como era bom de administração perguntou: e se a mulher não quiser vir comigo?
O administrador é quem gerencia recursos financeiros, materiais e humanos de outra pessoa.
Com a pergunta o velho ainda incluiu mais um critério: você não pode levar meu filho! Não quero correr o risco de quebrar o pacto que tenho com Deus.
Pois é. Estou falando de Abraão. Abraão é o 'velho' da história. Nosso pai na fé. O moço é Isaque, o filho da promessa divina. Lembra da promessa?

Então o Senhor disse a Abrão: 
"Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, 
e vá para a terra que eu lhe mostrarei.

"Farei de você um grande povo, e o abençoarei. 
Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção.
Abençoarei os que o abençoarem, 
e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; 
e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados".


E Abraão, que já conhecia o Senhor, garantiu que Deus iria ajudar o servo para conseguir a mulher ideal para o casamento. Ainda assim, entendeu que deveria liberar o servo da responsabilidade das escolhas da 'escolhida'. Tudo combinado o servo saiu. Mas tenha calma. Você vai ler o texto e perceber que o servo preparou os animais, a comitiva, os presentes para o momento do encontro. Tudo elaborado, tudo planejado. Chek list pronto, pés na estrada (Gn 24.10).
Depois de uma longa viagem o desafio deveria ser enfrentado. É aí que aprendo quatro princípios na vida deste servo de Abraão.
1. Mesmo no silêncio, mesmo sem saber orar, Deus nos ouve (Gn 24.15)
    Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo coração (Jr 29.13)
2. Algumas vezes, não poucas, o extraordinário está nas coisas simples (Gn 24.15/21)
    Exemplo de Naamã, das bodas de Caná
3. Louvor é consequência. Louvor é resultado de experiência com Deus (Gn 24.26)
    O povo de Samaria que ouviu o testemunha da mulher que encontrou Jesus no poço. "E disseram à mulher: 'Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo' (Jo 4.42)
4. O plano divino sempre será realizado mas estar inserido nele dá sentido à vida (Gn24.31)
    O apóstolo Paulo percebeu isso e disse: 'pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus." (1 Co 3.9)

Asaph Borba compos:
Tu és Soberano sobre a Terra
Sobre os céus tu és Senhor absoluto
Tudo que existe e acontece
Tu o sabes muito bem, tu és tremendo

E apesar dessa glória que tens
Tu te importas comigo também
E este amor tão grande eleva-me
Amarra-me a ti
Tu és tremendo

Nosso desafio:
Buscar intimidade com o Senhor
Faça a coisa certa; Procure-o com 'coração quebrantado e cotrito' (Sl 51.17); Aguce sua sensibilidade para perceber o extraordinário nas coisas simples; Se você experimenta isso, então louve!!










19 de out. de 2016

Testemunho com lápis cera

Enquanto 'rolava' o Culto na Praça eu achei um 'canto' (não era exatamente um canto mas uma daquelas mesas de concreto) e comecei a 'rabiscar' uma história bíblica. Caneta esferográfica e um pedaço de 'tapume' em mdf. Rabiscando, rabiscando e em meio aos rabiscos uma menina pergunta:
-Tio o que o senhor 'tá' fazendo?
-Desenhando.
-Isso eu sei. Posso ver?
-Claro que pode.
Não passa muito tempo e ela continua:
-Você vai pintar?
-Vou sim mas só depois que acabar o desenho.
-Posso ajudar a pintar? Eu sei pintar direitinho.
Ela viu um bocado de giz de cera sobre a mesa e eu respondi:
-Pode sim. Mas, como é o seu nome?
Ela respondeu e a gente conversou um bocado enquanto pintávamos o desenho (observe a expressividade no azul que está na parte de cima, no céu nesta reprodução). Me encantei. Comecei a contar a história do filho pródigo e ela imediatamente me interrompeu e disse que sabia até uma música daquela história. Ela cantou e contou um pouco da história.
Senti vontade de deixar um desenho com ela. Eliane Almeida logo trouxe uma resma de papel ofício e eu desenhei a pequena menina - vou preservar o nome dela. Quando entreguei o desenho ela, de repente sumiu. Quando percebi tinha um monte de crianças e eu fui fazendo caricatura de cada uma delas. Aí quando o culto acabou fui guardar o desenho. Ela me seguiu 'investigando' os cantos da nossa igreja, que fica bem em frente à praça. Por medo, ou respeito, ainda que eu desejasse, não abracei ela e educadamente a convidei para voltar no domingo.
Ela voltou mesmo e me procurou como 'o tio que desenha'.
Aprendi tanto com essa menina! Ela foi usada por Deus para falar comigo e agora invade minhas orações. Isso tudo incomoda e 'cutuca' à ação.
Ainda ecoa nos meus ouvidos:
-Tio 'cê' vai voltar?
90x70cm giz de cera e caneta esferográfica


22 de abr. de 2016

Nó direito e o Mario Marcio Verissimo

Ainda estou sob o impacto do falecimento do Mario Márcio Veríssimo. Ouvi, vi e experienciei vários comentários sobre ele e, confesso, não esperava nada diferente. Ele deixou marcas. Marca de alegria, paixão pulsante, paternidade envolvente e vida, muita vida. 
É impressionante perceber como a morte é uma agressão à vida e como a vida insiste em gritar presente mesmo em momentos como estes. Não nascemos para a morte mas somos escravos dela pela condição de pecadores. Mario também deixou marcas em mim. Não dessas experiências que quase entronizam as pessoas com os anjos. 
Marca de verdade é feita com história de dor. Hoje esta marca é uma cicatriz. Não é ferida aberta mas a marca está aqui para denunciar a presença dele e a restauração divina. Nos desentendemos feio. Creio que foi a maior tensão que vivi no espaço eclesiástico. Não foram poucos dias sem conseguir cantar. Gritamos um com o outro, nos ofendemos e, pela instrumentalidade do pastor Novaes, nos encontramos para 'colocar as cartas sobre a mesa'. O encontro foi feio. Saiu faísca pra todo lado. Saí daquele encontro com 'um bico'... Aí, depois de mais uma noite sem sono, comecei a perceber que estávamos discutindo, brigando, quase nos atracando fisicamente e estávamos com o mesmo objetivo. E, mais do que isso, percebi que a gente só briga porque se importa. O que nos incomoda é, de alguma forma, algo nos afeta. O que ignoramos não nos afeta. Tomar consciência disso me fez perceber que o admirava. Antes desse 'entrevero' conseguíamos conversar sobre o desenvolvimento dos meninos, sobre o mistério de ser pai, sobre a administração da saúde diante de doença crônica e até, do por incrível que pareça, sobre futebol. E isto não era nada simples. Eu torcedor do Flamengo e ele, como todo mundo sabe, apaixonado vascaíno. Lembrei disso tudo e percebi que, no fundo, queríamos investir no fortalecimento das famílias, cada um do seu jeito, cada qual sob seu ponto de vista mas os dois com o mesmo intento. 
Naquela noite eu consegui orar. Orar por mim, agradecer pelo Mario e ter coragem de perdoar, abrir mão (isso é complicado...) e pedir perdão. Comecei a perceber que tínhamos muito mais semelhanças do que diferenças. Fiquei mais leve quando falei com ele. Ele, sempre muito verdadeiro, não aceitou as desculpas nem quis falar comigo. Aí vi, de forma muito explicita, que 'passei da conta'. Em nome do zelo, da doutrina, da tradição passei por cima. Passei por cima de um irmão e Deus nunca, nunca me estimulou a fazer isso. Não insisti. Fiquei quietinho e deixei o tempo passar.
Eu não tinha mais problema para orar, nem para cantar mas, de alguma forma, o Mario sempre estava ali em minhas orações. Num domingo, nem sei qual, ele falou comigo de forma bem fria: 'e aí, beleza?" Respondi que não, e emendei logo que não tinha raiva dele. O tempo passou, deixei a coordenadoria da família por dois anos e, quando fui convidado à voltar, falei com ele antes. Perguntei o que ele achava da indicação, ainda disse que necessitava dele e que também desejava ter sua presença, sua paixão e sua alegria contagiante como parceiro neste ministério. Ele, prontamente se dispôs a ajudar.
Hoje, chorando no culto fúnebre e cantando 'você pode ter a casa repleta de amigos, paredes e pisos cobertos de bens...,mas nunca terá a paz que existe lá dentro que não se encontra pra poder comprar, porque esta paz só tem a pessoa que se encontra com Cristo", louvei a Deus pela vida do Mario Márcio, pelo pastor Novaes e, especialmente porque Deus me ensinou muito, muito mesmo através da vida do Mario. Pessoas valem mais. Pessoas são maiores e mais importantes que instituições. Nenhum zelo justifica a falta de amor. Louvei a Deus porque não ficou ferida aberta entre nós. Louvo a Deus porque tive oportunidade de atar um laço e desfazer um nó. A cicatriz está aqui mas ela serve para eu lembrar dele e lembrar que o Senhor me ensinou a perdoar porque eu também recebi perdão.



15 de abr. de 2016

Roseli e a sabedoria do 'Selah'

O maior livro bíblico é uma coleção de poesias.
Todos nós sabemos que poesia é coisa de gente. Atividade natural de gente sensível à realidade histórica, às circunstâncias, aos sentimentos, à vida. Por isso mesmo a Bíblia contém salmos de angústia, salmos de lamento, salmos políticos, salmos de peregrinação, salmos de louvor, salmos de gratidão, salmos de alegria.Vale a pena lembrar que somos humanos e a bíblia deixa muito claro, em sua essência, que essa humanidade não deveríamos perder. Sentimentos não deveriam ser ignorados nem rejeitados mas administrados com sabedoria.
Observe alguns s versículos do Salmo 66, um salmo de alegria:

Todos juntos aclamem o Senhor — aplausos para Deus! Cantem canções sobre a grandeza da sua glória, glorifiquem o seu nome em ritmo de louvor. Digam de Deus: “Nunca vimos nada parecido com ele!”.
Observem as maravilhas de Deus — elas são de tirar o fôlego. Ele converteu o mar em terra seca, e os viajantes atravessaram o rio a pé. Ora! Não seria esse um bom motivo para cantar?
Não nos pôs ele no caminho para a vida? Não nos impediu de escorregar? Ele nos treinou primeiro, passou-nos como prata pelo fogo refinador: Todos os fiéis, venham aqui e ouçam: permitam-me dizer o que Deus fez por mim. Dos meus lábios saiu um grito; da minha boca, uma canção.
Mas ele me ouviu, ele veio me ajudar assim que ouviu a minha oração. Bendito seja Deus, que não se fez de surdo, mas ficou do meu lado, porque me ama e é leal!

Sob um perspectiva poética, cada vida é, um salmo, uma música, um filme, uma poesia.
A vida da minha amiga Roseli Lassarot é uma bela poesia. Poesias de vitórias, de conquistas, de relacionamento, de valorização do ser humano, de amor.
Para ilustrar isso de forma didática transformei Roseli, com alguns riscos, num personagem para nos ensinar o que poderia ser a palavra SELAH.
Escolhi dar foco à expressão hebraica porque ela aparece várias vezes neste salmo e também percebi que ela ocorre em outros registros desse livro poético. Selah é uma `palavrinha' está lá no original e creio que pode nos ajudar e estimular à reflexão.
Selah causou muita curiosidade e fomentou inúmeras pesquisas. Existe unanimidade que este registro é um termo musical, isto facilmente foi aceito porque estas poesias eram, em sua maioria, letras de músicas. Então Selah é um sinal, um indicativo, um registro para uma expressão cultual. Mas nem tudo que se relaciona ao sinal é consenso. Os teólogos não chegaram a uma conclusão do que significaria `selah` para a música. São três vertentes muito fortes para este sinal:


SELAH pode ser uma PAUSA, ou interrupção para mudança
SELAH pode ser derivado de 'salal', que é LEVANTAR
SELAH pode também ser AMÈM (assim seja) concordando com o que acabou de ser cantado.

Foi a partir dessas informações que parei para pensar:
A vida, que já chamei de poesia, também nos oferece alguns desses 'sinais' que marcam o tempo. Os poetas bíblicos ensinam que 'há tempo para todas as coisas...' (Ec 3) e também que 'devemos aprender a registrar cada dia' (Sl 90.12)  ou 'que cada dia tem sua própria história' (Sl 96.2).
Sendo assim, existem períodos na poesia de nossa vida, em que deveríamos valorizar a pausa, a finalização de uma etapa. Em outros momentos o mais apropriado seria levantar, começar uma nova fase, deixar a chamada zona de conforto. E ainda, em alguns momentos, o ideal é pularmos de alegria, cantar alto e dizer amém, amém, amém. Momentos como o que vivemos num aniversário, táo especial, como o da minha amiga.
Minha oração é que a Roseli continue com percepção aguçada para saber a melhor atitude, o melhor `selah`que deve ser vivido para enfrentar as diversas circunstâncias da vida.

2 de mar. de 2016

Vocação e chamada 3

Voltei  ao STBSB porque fui, 'cutucado'. Quando deixei o seminário em 1984, sei que foi uma tristeza para minha família. Meus pais, meus irmãos nunca reclamaram diretamente porque sabiam que eu 'gostava de arte'. Cada vez que me perguntavam o porquê,  eu respondia: fiquem tranquilos eu 'sou crente' e só quero servir ao Senhor do meu jeito. A cada igreja, em cada comunidade a que pertenci, me envolvia, logo 'virava' professor de EBD e então, obrigatoriamente estudava a Bíblia. Assumi cargos de liderança e, profissionalmente desenvolvia minha vocação. Tão novo, com cerca de 30 anos substituí meu amigo e querido pastor João Falcão Sobrinho, em um período em que ele esteve enfermo, enquanto atuava como primeiro vice- presidente na PIB de Irajá. Agora, mais velho, carrego a imensa responsabilidade de ocupar a vice presidência desta igreja, tendo o pastor Carlos Novaes na liderança. Inúmeras vezes ouvi as pessoas me chamarem de pastor. Sempre recebi como manifestação de carinho. Porém, todas as vezes em que ouvia ou me imaginava pastor, me lembrava da fala da Marilia: 'não quero ser esposa de pastor'. Cada vez que ficava incomodado com isso fazia uma transferência total do problema para Deus. Dizia eu: 'Senhor, sei que ela é a minha esposa. Sei que ela é presente Teu para minha vida. Sei também que, depois do Senhor, ela é a prioridade em minha história. Então, 'resolve este problema', eu orava. 'Quando o Senhor quiser estou aqui, mas fala com ela Senhor!' Orava assim, de forma infantil, para eu não ficar envaidecido com a sedução pastoral. O tempo passou e deixei de orar sobre isso. Parei de orar entendendo que o que deveria fazer era servir. Fui chamado para servir ao Rei Jesus como pudesse e onde estivesse. E quero dizer que ainda creio firme e confiadamente nisso.
Mas, em setembro no ano passado, substituindo o pastor Novaes num convite recebido para ser o preletor no Retiro de Casais na PIB de Vila da Penha, ocorreu o inesperado. Todo material de divulgação e as imagens da projeção estavam com a apresentação do 'pastor' Hudson. Logo que vi, tive o cuidado de, antes da primeira noite, falar com o pastor da Igreja,  pastor João, que eu não era ordenado pastor e que ele deveria, por favor, fazer esta justificativa para os retirantes. Falei isso, porque, pouco tempo antes, fazendo um série de sermões na igreja de meu amigo, Pr. Isaías , no DF, fui por muitas e muitas vezes chamado de pastor, e a cada vez me sentia constrangido com a situação. Ouvindo isso, o pastor João Melo disse, de forma muito amigável e simpática, que não iria mudar nada. Ali eu seria o 'pastor' daqueles casais. E ainda disse, perto da Marilia, que eu deveria assumir meu ministério e entender que meu rebanho eram as pessoas que nós cuidávamos na igreja. Então, respondi, com o 'jeito Hudson de ser', que a igreja da Vila da Penha era dele e ele é quem mandava: se era para ser 'pastor', e eu obedeceria. Eu, Marília , pastor João e sua esposa Priscila rimos juntos e conversamos um pouco naquela varanda antes da primeira noite de retiro. Pela misericórdia do Senhor, tudo correu muito bem. Só que, na volta para casa, depois de tantas vezes ouviindo as pessoas me chamando de pastor  naquele retiro, Marilia me disse: 'Amor, vamos resolver isso logo! Pare de palhaçada e peça logo para ser ordenado pastor!' Como assim? - perguntei. Ela disse que eu já era 'pastor', que a maioria das pessoas já me viam assim e que não daria para ficar adiando mais este referendo eclesiástico. Ela disse que, do que jeito que estava, parecia que estávamos sustentando uma mentira e enganando os irmãos. Perguntei brincando, se ela não tinha tomado o seu 'remedinho'e fiquei quieto. Não contei a ela sobre as minhas orações do passado. Confesso que achei que ela iria esquecer logo daquela  conversa . Mas, qual não foi a minha surpresa quando ela voltou ao assunto naquela mesma semana, cobrando a minha ligação para o pastor Novaes pedindo a ordenação. Conversamos muito. Contei toda esta história para ela e perguntei se não a estava traindo. Ela disse que não e que ficaria em paz se eu fizesse isso. Só então liguei para o pastor, que naquele mesmo dia marcou a apresentação da proposta para a assembléia da igreja. E assim, aqui estou. Continuo crendo que todos somos vocacionados e que desejo servir a Deus. Creio que só se serve a Deus servindo às pessoas. Não quero pensar em sustentar uma mentira, iludir o povo de Deus e, muito menos alimentar 'a aparência do mal' na cabeça dos irmãos.

Fim. Para entender toda a história sugiro ler Vocação e Chamada (neste blog) 1 e 2

Vocação e Chamada 2

Mesmo com a 'ameaça' de perder a namorada, fui para o STBSB em 1984. Fiquei por seis meses morando no espaço chamado de "Navio Negreiro'. Saía do trabalho e me deslocava para as aulas noturnas, no curso que apelidavam de 'cipó' (porque o aluno anda sempre pendurado). Graças a Deus conheci professores que foram muito além de depositantes de conhecimento em sala de aula. Foram educadores na acepção máxima da palavra. Gente como o professor Silvino Neto, professor que me ajudou muito. Foi o professor Silvino que me estimulou a entender que Deus vocaciona a todos.Ele questionou:por que não servir a Deus com o dom que ele te deu? Fui com a pergunta para o 'Negreiro' e resolvi 'fazer as 'malas'. Decidi prestar vestibular para Artes Plásticas no Instituto Bennett. Fiz a prova, passei em primeiro lugar por conta da prova de habilidade específica e deixei definitivamente o STBSB. A cada dia de aula na faculdade de artes me sentia mais próximo da vontade divina. Me encontrei como cidadão, como ser humano, como arte-educador e, por incrível que pareça, como cristão. No final do curso, depois de cinco anos de namoro com a Marília, resolvemos nos casar.
A cada dia uma dádiva! São mais de vinte e sete anos e minha casa é um abrigo para minha alma. Nosso filho, tão querido, é exatamente que o seu nome significa: um presente de Deus. Entreguei ao Senhor a minha vida e depois, como é natural, perguntei: e agora, o que faço? Fui fazendo o que sabia. Nunca tive dúvidas de minha vocação e chamada. Fui desenhando e servindo. Servindo a Deus com o desenho. Desenho para JUERP, desenho para UFMBB, desenho para JMM, desenho para JMN e desenho para JUMOC e JURATEL. Aprendendo muito com toda literatura, com os redatores, com o retorno dos leitores. No entanto, cresci também profissionalmente fora da denominação. Fui premiado por dois de meus trabalhos feitos para uma editora secular. Todavia, por uma  perspectiva errada de Reino, decidi largar tudo. Assim, pedi demissão desta editora e, com essa decisão, perdi cerca de 30% de nossa renda familiar, Marília estava comigo nisso. Fomos para Campinas, trabalhar na JUMOC. Lá aprendemos muito. Muito mesmo.
Quando completei quarenta anos de vida, aqui nesta igreja, num final de culto matutino, pastor Novaes conversou rapidamente comigo, aqui na frente, e me instigou a voltar para o STBSB. Que responsabilidade!! Disse que não queria pensar nesse negócio de ser pastor. Ele me respondeu que tinha dito que era para eu voltar ao seminário e não para ser pastor. Voltei. Tive o prazer de ser um dos mais velhos da turma (kkk). Que período abençoador, desafiador e de grande aprendizado! Cutuquei muito meus colegas de turma, critiquei muito a instituição (criei um jornaleco chamado de "A Mula de Balaão' para denunciar as 'bobagens' que os futuro pastores faziam na 'Colina'). Dez anos se passaram. E eu estou aqui, enfrentando um concílio para o ministério pastoral.

Continua em Vocação e chamada 3

Vocação e Chamada 1

Cresci na igreja. Fui forjado numa igreja batista e, especialmente na organização Embaixadores do Rei. Lá passei por todos os postos. Desde Candidato até o último dos postos superiores - Embaixador Plenipotenciário. Num dos famosos acampamentos de verão no Sítio do Sossego, que sempre acontecia em janeiro, havia o que era chamado de 'a tarde da decisão'. O Pastor Francisco Antonio de Souza, missionário da JMM nos Açores, era o pregador convidado daquele acampamento. Aquele ano, naquela tarde, parecia que Deus estava falando diretamente comigo. Me decidi. Quando fui à frente encontrei dois amigos de Embaixada. O pastor Levi Melo e o Edmilson Guerra. Amigos de igreja, de embaixada e futebol. Futebol na igreja e fora dela, fazendo testes e sonhando ser jogador profissional. Tínhamos entre 14 e 15 anos e o relatório daquele acampamento na igreja era de três vocacionados. A igreja nos acolheu carinhosa e orgulhosamente. Eu achava que Deus estava me chamando para ser pastor. Era natural imaginar isso porque ser vocacionado por Deus naquela 'cosmovisão', era quase sinônimo de ministério pastoral. Cresci sendo observado, desafiado e mergulhado nessa vocação. Meu pai, nosso conselheiro, criou o mês dos ER. Fazíamos tudo na igreja. Desde o trabalho de zelador até, num domingo a pregação. Por isso, nosso pastor, pastor Waldir Guerra, nos orientou e ensinou como pregar para atuarmos nos cultos que eram realizados nos lares. No final do curso individualizado, o pastor apresentou um material que a JUERP produzia com folhetos com esboços de pequenos sermões.
Quando terminei o ensino médio passei no vestibular para artes na UFRJ mas não pude estudar 'no Fundão' porque o curso era de tempo integral e para enfrentar as aulas teria que pedir demissão do trabalho. Lógico que imaginei que Deus estava me 'conduzindo' para o Seminário. Mesmo assim, sem certeza, fiz uma prova para o CPOR (Corpo Provisório de Oficiais da Reserva) e não passei. Os reprovados do CPOR já estavam com a liberação do serviço militar bem encaminhada. Mas, para minha surpresa, algum oficial leu minha ficha do alistamento e percebeu que eu já era um profissional na área artística - comecei a trabalhar na JUERP com 14 anos como aprendiz do SENAI de artes gráficas. Na época eu já era  ilustrador de quatro revistas. Duas para EBD (Vivendo e Crescendo) e outras duas da União de Treinamento (União de Juniores e União de Adolescentes). Assim, fui 'agarrado' no serviço militar para desenhar 'mapas de guerra' como soldado do exército. Fiquei no emprego como freelancer e na caserna por dez meses.
Neste período conheci minha namorada, que hoje é minha esposa. A conheci por conta de um trabalho de arte - o painel para coroação de rainha das MR (Mensageiras do Rei) na igreja de minha colega de trabalho de JUERP, Marilda Pessanha. Ela era membro da IB de Vicente de Carvalho. Marilia, filha do pastor Genésio, meu superior na JUERP, tinha vida totalmente dedicada à igreja. Sempre muito estudiosa, crente fiel, compartilhava comigo os desafios e os trabalhos do Reino. Acompanhei seu desempenho como Rainha da Associação Ouro e seu brilhante desempenho como Rainha dos Adolescentes do RJ. Ela, então minha namorada, viveu intensamente minhas crises para ir ao STBSB. Devo ou não ir para o seminário? Aceito ajuda da igreja ou faço o seminário por minha conta? Dizia isso pensando que se fosse para uma faculdade a igreja não iria pagar nada. Conversávamos muito, ela sempre me apoiou, mas sempre deixou  que não queria ser 'esposa de pastor'.

Continua em Vocação e chamada 2

29 de fev. de 2016

Minha conversão

Fui apresentado ainda bebê na igreja Batista de Benfica. Quando fui levado à frente, ganhei um novo testamento que ainda guardo comigo. Vivia, como qualquer criança correndo no quintal e nos corredores da igreja. Meus amigos estavam ali, o terreno da igreja era o quintal da minha casa. No espaço do templo recebia carinho, ensino e atenção. Ir à igreja era uma satisfação. Lembro bem das farras no caminho, junto com meus irmãos. O percurso era muito longo para uma criança e nós eramos cinco. Meu pai com o Wagner no colo, minha mãe com a Bianca e eu , Evert e Thetis correndo no caminho. Coincidência ou não encontrávamos outros irmãos no caminho do templo e aí o prazer era ainda maior. Sou o segundo de um grupo de cinco irmãos. E foi na igreja que surgiu mais uma irmã. A amiguinha de minha irmã Thetis 'perdeu' o pai e foi 'abraçada' pelos meus pais e minha família. A Rose Liane passou a ser mais uma 'moleca' em casa. Primeiro nos fins de semana e depois, na adolescência, todos os dias.
Cresci sendo desafiado com as poesias para decorar, os versículos, a música e os 'deveres' de casa da classe da Tia Darlene Sheidegger "Cristo tem amor por mim com certeza creio assim..." ou 'por mim morreu Jesus..." Lembro que fui chamado atenção porque sempre que o pastor fazia o apelo e dava um jeito e ia à frente. Assim, antes de completar nove anos eu já havia pedido para ser batizado mas, naquele tempo, a recomendação era que nenhuma criança deveria ser batizada antes dos dez anos. Ouvi e me lembro bem disso numa das concorridas assembleias regulares da igreja. Minha professora de EBD me defendeu. Lembro bem dela ter ficado em pé e dado testemunho de minha 'vidinha de crente'. Quando fui 'sabatinado' diante da igreja em minha profissão de fé, naquela época deveríamos responder a qualquer pergunta do plenário, lembro que fui abraçado pelo pastor e, diante de todos, recebi um beijo da Tia Suzana Campelo. Fui batizado no primeiro batismo do ano que completei dez anos. E, em 31 de março de 1974 na igreja batista de Benfica, fui batizado pelo pastor Sérgio Paulo Azeredo Boechart
Com menos de um ano de batizado minha carta de transferência chegou à igreja Batista de Costa Barros. Senti um orgulho muito grande de ter meu nome lido na assembléia. "Recebemos a família do irmão Rubens', dizia o pastor Waldir Guerra e ao receber leu o nome do meu pai, da minha mãe e o meu, como membros transferidos daquela 'igreja irmã' ele  dizia, para a nossa.
Foi na igreja batista de Costa Barros que comecei minha caminhada como ER. E, depois de batizado é que experimentei a exata noção de conversão. Conversão é mudança de rumo. Mudança que é resultado de arrependimento e fé. Morávamos em Costa Barros e eu estudava na Pavuna. Não poucas vezes voltava a pé para casa a fim de economizar dinheiro da passagem. Comecei a 'me sentir' independente. Desenvolvi amizades bem diferentes das que eu tinha na igreja. Comecei a jogar bola depois da aula, a ficar muito sujo para voltar para casa e conseguir a casa de um amigo para 'maquiar' minha sujeira. Aprontava uma molecagem aqui, outra um pouco maior ali e assim desenvolvi uma vida 'bem moleque' longe de casa e uma vidinha comportada no espaço doméstico. Comecei a jogar futebol de forma apaixonada e para isso era preciso 'enfrentar' adversários sem medo. Comecei a me envolver em brigas e para não ficar fragilizado, 'colei' com os mais temidos da escola. Minha fama no colégio não era muito boa e num domingo, na praça de Costa Barros, enquanto o culto era feito na praça, os meninos e meninas iam distribuir folhetos. Eu, como estava no 'papel de crente' fui junto com todos os meninos, como costumava fazer. Na segunda feira meu 'amigo de farras' falou diante da classe da escola que eu era crente. Fiquei muito sem graça, não neguei e depois, no intervalo, fui 'tirar satisfação' com o 'segundo maior bagunceiro' da classe. Quem te disse que eu sou crente Renato? Eu vi. Ele disse e explicou: Passei de carro com meu pai, que era corretor de imóveis, e te vi com uma bíblia distribuindo folhetos. Fiquei arrasado e confirmei a história. Vivi profunda culpa, arrependimento. O sentimento foi semelhante ao do apóstolo Pedro ao esquivar-se enquanto o Senhor estava sendo julgado e surrado (Mt 26.33 e depois Mt 26.58). A lembrança do compromisso dos ER ecoava em minha mente com força avassaladora 'terei uma vida pura, corrigirei os meus erros, seguirei a Cristo o Rei. Se assim não for para que nasci?" Minha maior surpresa foi saber que o Renato também temia a Deus e frequentava a Igreja adventista do sétimo dia. Mudei de vida, de atitude e todos da classe começaram a comentar que eu tinha 'virado' crente mesmo.

26 de jan. de 2016

Referência

Precisamos de referência.
Aprendemos imitando. Grande parte do que aprendemos é por imitação.
Como você aprendeu a amarrar o cadarço do tênis? Ainda não aprendeu?
Como você aprendeu a escovar os dentes?
A gente aprende olhando e repetindo. Repetindo e olhando, e olhando, e olhando mais uma vez.
Antes de fazer ditado a gente copiava, copiava e copiava.
Nos esportes isso fica ainda mais claro.
LeBlon James era fã e tentava copiar Michael Jordan. Os Bleatles era uma banda cover. Grandes pintores aprendem copiando obras primas.

Este início de ano perdi algumas das referências de minha adolescência.
Sebastião Rezende, Sr Isaltino Gomes Coelho e ontem, D. Dejanira Guerra.
Gente que marcou um período muito bom de minha vida.



O primeiro um homem que sofreu uma mudança radical. Acompanhei sua mudança. Assumiu a fé e tinha uma fome desenfreada de aprender. O 'cara' transpirava vida. Gente boa. Boa de conviver e que várias vezes perguntava. Pouco importava se era 'grande', porque raramente os adultos da igreja conversavam. Tião, como era chamado, não tinha vergonha de perguntar. Mesmo à um 'moleque' de igreja. Profissionalmente era, o que hoje se chama de empreendedor. Fazia de tudo, como ele dizia para sustentar 'os moleques'. Um homem apaixonado pela família e isso transbordava em seu exercício de fé.



O segundo, Sr Isaltino, era mais contido. Conversava baixo e, pausadamente, de forma extremamente educada trançava conceitos filosóficos, eclesiásticos e tecnológicos. Raramente o via na igreja. Conversava com ele em sua casa porque sou amigo de seu filho Isaías, hoje pastor em Brasília. Sempre saía daquelas conversas pensando sobre a razão, a coerência entre as Escritos e a prática litúrgica de nossa  fé. "A fé deve valer para quando você está sozinho', ele dizia. Ano passado estive em sua casa e, infelizmente, não conversamos. Ele estava inerte e já não reconhecia ninguém, além dos filhos e da esposa. Ainda estou impactado com a visão desse gigante numa cama.



A terceira pessoa... essa era um doce de criatura. Dona Dejanira me acolhia como a um de seus filhos. Eu me achava especial perto dela. Depois, com a convivência, fui percebendo que ela fazia o mesmo com as outras pessoas. Nunca a vi dirigindo um culto. Nunca a vi fazendo solo, ou mesmo uma leitura bíblica. A voz dela deveria ser 'investigada' no meio do coral, ainda que fosse um contralto seguro e afinadíssimo. Educada e extremamente sábia mesmo com pouca escolarização (Escolarização não é educação!). Dona Dejanira era crente. O Evangelho seria outro se o mundo tivesse mais Dejaniras. Quando passei por dificuldades na saúde, e não foram poucas, ela sempre dizia: filho, estou orando por você. E isso nunca me pareceu discurso pronto. Ela orava mesmo. Quase não se ouvia sua voz, mas sua vida foi um grito de fé.

Referências.
Gente que não está mais aqui.
Gente que, como diz as Escrituras, 'o mundo não é digno' (Hb 11.38)
Foi aí que parei pra pensar: há quanto tempo não via o irmão Sebastião? E o Isaltino? E a Dona Dejanira Guerra? Tomei consciência de que não os via há muito, muito tempo. Não os via mas eles estavam aqui dentro de mim, tão perto, tão reais, tão atuais. Catando recordação os encontro muito vivos em minhas referências.
A gente começa admirando, imitando e, quando dá conta... vira referência.
Minha oração:
Senhor, por favor, me ajude! Me ajude a entender que ainda que não queira, sou referência.
Senhor, por favor, oriente! Ensina-me Senhor a fazer escolhas e assumir posturas afinadas contigo. Não quero ser referência negativa, não quero envergonhar seu nome.
Senhor, por favor, me sustente! Me sustente porque só a tua graça. Sem ela não dou conta.


Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o seu nome mostrastes,
enquanto servistes aos santos; e ainda servis.
Mas desejamos que cada um de vós mostre o mesmo cuidado até ao fim,
para completa certeza da esperança;
Para que vos não façais negligentes,
mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas.


18 de jan. de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 4)

Saímos da arca.
Um passo de cada vez, olhando para todos os lados, saímos.
O mundo é lindo! Era como voltar o tempo, era como um sonho, era como voltar ao primeiro jardim.
E o Senhor caprichou! Tudo estava lindo 'naquela nova casa"!
Não demorou muito e, em silêncio, fui recolhendo pedras e reunindo. Minha esposa, meus filhos e noras fizeram o mesmo. Ali construímos um altar. A arca no alto do monte, o barulho da cachoeira, o cheiro bom de mato molhado... nem sei direito quem começou, mas começamos a cantar:
"Senhor meu Deus, quando eu maravilhado,
Fico a pensar nas obras de Tuas mãos
O céu azul de estrelas pontilhado,
O seu poder mostrando a criação
Então minh'alma canta a Ti, Senhor:
Quão Grande és Tu.
Quão Grande és Tu..."

Nosso primeiro ato não poderia ser outro. Queríamos que agradecer. Agradecer pelo que passou. agradecer pelo que estávamos vivendo e agradecer pelo que começaríamos a fazer. Me senti o novo Adão. Minha família ali e aquela imensa responsabilidade de construir um novo jeito de ser gente.
Sei que vida é feita de ciclos. A natureza é regida por este instrumento. Foi o próprio Deus, o criador, quem prometeu que 'enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão." E continuou, 'dominem sobre tudo, comam de tudo só não bebam sangue'. Sangue é vida! Não derrame sangue. Quem derramar sangue verá seu próprio sangue derramado. Vou fazer um acordo como vocês, disse o soberano. E, num instante o céu revelou um arco multicolorido de uma beleza extraordinária.



Como você acha que passamos aquela noite?
Ali pertinho da cachoeira havia um gruta. Fomos para lá e eu fiquei olhando o céu apinhado de estrelas. Quase que automaticamente voltei a pensar no meu bisavô, Enoque. Enoque andou com Deus, e o Senhor o tomou para si". Lembrei do vô contando a história. Quando a gente é velho as memórias mais fortes são as que repetimos, repetimos, repetimos tantas vezes que parecem que sempre estiveram marcadas lá no fundo do coração.
Dei um sorrisinho de canto de boca e pensei:
Enoque andou com Deus mas eu, eu naveguei com o Senhor.
Sei que não fiz nada para merecer mas Ele se lembrou de mim e de minha família. Vou repetir esta história todos os dias. A arca vai ficar lá no Ararate - lugar sagrado é seu significado. Vou construir uma casa. Vamos estabelecer uma população que teme ao Senhor. Será um paraíso de verdade. Um lugar sem violência, sem desrespeito, sem falcatruas... um lugar de gente que teme e obedece ao Senhor.
-Vem dormir 'home'! Ouvi do fundo da caverna.
E foi ali, naquela noite, que percebi o significado do meu nome. Noé. Noé é descanso, é repouso.
Obrigado Senhor!

"Não tenhas sobre ti um só cuidado, qualquer que seja
Poi um, somente um, seria muito para ti.
É meu, somente meu todo trabalho
E teu trabalho é descansar em mim"

https://www.youtube.com/watch?v=4_7bAF8Je-c&index=21&list=RDQgqAervfz-c

16 de jan. de 2016

Eles somos nós


A Bíblia é o registro da revelação divina. Sendo assim, os episódios, os dramas e também os personagens servem como 'pano de fundo' para revelar o caráter divino. 
A Bíblia não é um livro de biografias, nem hagiografia (descrição de uma vida de virtudes heroicas). As Escrituras não estão interessadas em entretenimento ou 'fofocas espiritualizadas'. O que temos é registro da Revelação de Deus. As histórias, os personagens mostram um Deus que se relaciona, se preocupa, se envolve e deseja travar parceria com a criatura mais parecida com Ele mesmo. Um dos recursos que os autores bíblicos utilizam é o chamado 'antropomorfismo' - colocar sentimentos e atitudes humanas em Deus. Esse recurso é muito útil para tentar entender Deus a partir do nosso ponto de vista.
Quando leio o drama de Abraão e a coragem de enfrentar uma mudança, quando vejo Noé e a maneira como encara o desafio e prepara a arca,  mesmo contra tudo que era visível (Hb 11). Aliás, vale a pena parar para ler o no capítulo dos heróis da fé, Hebreus onze. Lá o autor, depois da imensa lista, questiona; 'que direi mais? Esses dos quais o mundo não foi digno..."
Eles somos nós!
Os personagens são, como diz Tiago, gente sujeita às mesmas paixões que nós, ou seja, gente como a gente. Eles são exemplo positivo e, algumas vezes negativos, que devemos observar. A escolha sempre é responsabilidade nossa, mas gosto de pensar e preciso enfatizar que 'eles somos nós'.
Todos os que seguimos a Palavra, temos exemplos em nossa vida. Quem, quando pensa em vida cristã não tem uma referência humana? Isso ocorre em todas as áreas da vida. Escolhas necessitam de parâmetros.
No mundo das artes fica muito claro que todo artista começa imitando. Na realidade, começa selecionando o que e a quem imitar.

Vou terminar transcrevendo uma parte do livro 'Roube como um artista" de Austin Kleon:
"Copie seus heróis. Perceba onde você fica aquém. O que existe aí que o torna diferente? Isso é o que você deveria ampliar e transformar em seu próprio trabalho.
No fim das contas, a mera imitação de seus heróis não é homenagem. Transformar o trabalho deles em algo seu, sim, é homenageá-los. Dando algo ao mundo que só você poderia conceber"

Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta.
Hebreus 12.1

31 de dez. de 2015

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 1)


Meu nome é Noé. Meu pai se chamava Lameque. Ele achou que eu seria simbolo de 'descanso', de 'repouso' por isso me deu este nome. Meu pai e o 'vô' Matusalém, que todo mundo chamava de 'o velho', conheceram o primeiro homem. É verdade! Eles conheceram Adão. O homem esculpido pelo Criador.
Meu pai me contava histórias muito interessantes sobre Adão e as experiências vividas na região do Éden. Eu, que sempre fui um menino curioso, cresci observando a natureza e, em cada detalhe que reparava era impossível deixar de perceber a beleza e a organização da criação divina. Tinha uma 'coleção de lascas' de árvore arranhadas com desenhos copiando esquemas da natureza. Quando adolescente saí para procurar 'o velho', meu 'vô". O "vô" era muito bom de papo. Ele mostrava de maneira tão poética a beleza da criação e nunca deixava de contrastar a organização dos ciclos da vida com, por exemplo, a bagunça e o estado de corrupção dos seres humanos. O "vô" sempre me falava que meu 'biza', pai dele, não tinha morrido. Eu, da primeira vez, fiz como todo mundo sempre fazia. Fui perguntando onde ele estava. O 'vô" deu uma risada marota e disse que o pai não tinha morrido mas que não estava mais aqui. Como assim? - eu perguntava. E ele respondia: Enoque andou com Deus, meu filho. Deus pegou Enoque de volta. Deus tirou meu pai, dizia ele, desse mundo doido.
Quando voltei da casa do 'vô' decidi ser diferente. Eu achava que andando com Deus eu também seria levado para o paraíso. É claro que eu não sou besta e nunca falei nada disso com ninguém. Na verdade, eu nunca fiz nada de extraordinário. As únicas coisas que eu fazia e que deixava as pessoas impressionadas era me relacionar com os animais e fazer pesquisas com as plantas. No fundo eu só queria fazer escolhas que não desagradassem ao Criador.


O tempo passou e Deus me presenteou com uma mulher linda. Me apaixonei dela e ela de mim. Prometi a ela ser 'uma só carne' na mistura com ela. Ela adorou a promessa que, convenhamos, não era nada original. Fato é que formamos uma família e, Deus nos abençoou com três meninos fortes. Sempre que tinha possibilidade, repetia as histórias que meu pai e o velho 'vô' me contaram. Gostava de chamá-los de 'meus moleques'.
'Meus moleques' levaram nomes que mudaram minha expectativa de futuro. Não queria mais ser levado para o céu. Gostava deles, estava cada vez mais apaixonado por minha mulher e achava nossa vida sensacional.  Não posso esquecer de dizer o nome deles três. Sem (nome de grande fama), Jafé (Deus te dê um lugar espaçoso) e Cão (queimado do sol), o mais moreno. Os três diziam que já estavam cansados de ouvir as mesmas histórias. Mas eu precisava repetir e fazer o máximo para que eles não fossem influenciados pela sociedade em que vivíamos. Acho que ser 'rotulado' de chato é o que acontece quando você está determinado a cumprir uma missão. Minha missão era preservar minha família. Cabeça dura, teimoso, metido a certinho eram alguns dos apelidos mais simpáticos que me davam. A realidade é que, quando saíamos para brincar na cachoeira, ou caçar um animal para fazer um assado aí eles gostavam. Gostavam da comida e até mesmo das histórias. Eu só ficava sabendo da 'zoação' dos vizinhos pelo que a minha esposa contava.
Quando eu tinha que enfrentar alguma dificuldade sempre fazia o mesmo que costumava fazer quando era criança. Eu ia para aquele monte e, sentado naquela árvore gigante, olhava o céu e conversava com Deus.
Num desses dias, eu quase caí do galho. Deus falou comigo. É. Isso mesmo que você leu. O grande Criador não apenas falou mas desabafou comigo. Eu já sabia que o mundo estava de mal a pior mas não tinha ideia de que o Criador estava tão decepcionado conosco. Na conversa, Deus revelou que iria salvar minha família, mas mesmo assim fiquei triste. Com uma lasca do tronco da árvore anotei todas as orientações que o Todo Poderoso me deu. Fui para casa e, naquela mesma noite, contei para todos de casa o que tinha acontecido e o que iria ocorrer.

22 de dez. de 2015

A Revelação Geral


Deus se revela.
Somos finitos e Deus infinito. Na realidade nem poderíamos ter comunhão com Ele mas Ele, que é amoroso e quer se relacionar, resolveu se revelar. 
DEUS SE REVELA NA CRIAÇÃO
Como ocorre com as artes, a arte revela o artista. 
O poeta entendeu isso muito bem quando registrou, no Salmo 19:
'Olhe para o céu e veja! A beleza do céu mostra a grandiosidade,
a obra extraordinária das mãos de Deus, este grande Artista.
Ele elaborou, organizou e realizou tudo que existe.Cada dia é totalmente novo e mostra essa dinâmica peculiare criativa a outra manhã, de forma completamente diferenteda anterior. Mais interessante ainda é como acontece a mesmacoisa com a noite. Não há repetição. Nada é monótono.O Senhor Deus não fica por aí ‘tirando onda’, nem fazendo discursospara mostrar sua magnitude, suas habilidades, sua virtuosidade artística.Repare. Repare bem. O que ele faz atesta quem ele é.'"Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção.Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados".Gálatas 4:4
porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram.
Romanos 1:20,21

Deus nos deu uma revelação objetiva, vália e racional acerca de si mesmo por meio da natureza. Fez isso também usando a história.
DEUS SE REVELA NA HISTÓRIA
O Deus que é infinito, que não se limita ao tempo, fez-se gente na história. A história dos seres humanos revela a presença divina. Deus faz uma promessa em Gn3.15 e prepara uma nação para ser 'o ventre do Messias' Gn12.2 e 3 
Todo o 'drama do AT' ocorre até que chega o tempo oportuno:
'Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei,'

DEUS SE REVELA NO CARÁTER HUMANO
Ficamos, não poucas vezes, incomodados com a maldade humana. Buscamos, de todas as formas, explicações para o 'nó' existencial da humanidade. O efeito da queda recai sobre os seres humanos. Todos sabemos que o ser humano não dá conta, não se basta. É o que o apóstolo Paulo registra aos romanos:
Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis;

Um fato inquestionável é que todas as pessoas tem um conhecimento de Deus. Até os ateus tem esse conhecimento mas optaram por suprimi-lo. A revelação geral também nos ajuda a entender o fenômeno mundial da religião. Essa 'busca de Deus' está presente em todas as culturas através dos tempos. A revelação geral incomoda a mente humana e o faz 'investigar' uma lógica na criação, na história e em si mesmo. É uma 'cutucada' à consciência e responsabilidade. Por isso mesmo, como diz as Escrituras, 'todos são indesculpáveis'. O que é fundamental destacar nesse resumão é que Deus não se 'limitou' à revelação geral. Existe uma outra dimensão da revelação divina. Uma revelação especial e bem particular de Deus. Isso veremos num próximo post.