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30 de mar. de 2016

Muito prazer, meu nome é Ana

Meu nome é Ana. Esposa de Elcana. Marido amoroso, mesmo eu não lhe dando filhos. Minha infertilidade fez Elcana casar-se com Penina. O regime de bigamia era legal e tive que conviver com a segunda esposa de Elcana. Continuei sendo a esposa amada de Elcana e isso despertou ciúme e inveja em Penina. Dia-a-dia ela me irritava. Lembrava-me sempre da minha condição de esterilidade. Eu sofria calada. Já não dera filhos a Elcana, não podia me tornar uma mulher richosa. Estava deveras triste. Imagine meu tormento: A mulher que não dava descendentes ao marido era considerada indigna e logo suspeitavam de algum pecado. Eu não pecara, mas Deus havia cerrado minha madre e ainda tinha que aguentar as picuinhas de Penina. Éramos muito religiosos. Obedientes as leis íamos anualmente ao Tabernáculo, em Siló. As ofertas queimadas e os presentes que Penina recebia, por cada filho que possuía, era exibido por ela de forma a me afrontar. Meu marido também me dava presentes, e isso aumentava ainda mais a inveja de Penina. Meu espírito se esmoreu e se abateu com esta situação. Não conseguia comer. Meu marido percebeu minha tristeza e questionou-me se não era bom marido. Se ele não me dava segurança como se dez filhos tivéssemos!! Ah!! Ele me amava, mas não entendia minha indignação. Eu busquei Deus. Em jejum, no Tabernáculo, me derramei diante do Senhor clamando e pedindo que me desse um filho homem e me livrasse de tanta vergonha e humilhação. Orei tão fervorosamente que gesticulava e movimentava meus lábios, sem emitir som algum, para não despertar a atenção dos outros. Eis que o Sacerdote me observou, se aproximou e me repreendeu achando que estivesse embriagada. Imagina!! Eu era uma mulher triste e aflita. Eu viera para orar e buscar em Deus, uma benção. Disse-lhe que fizera um pedido e uma promessa a Deus. Não para manipular ou para obriga-lo a me atender. Não!! Eu sou uma serva fiel. Deus conhece meu coração. Então Eli dispensou a benção sacerdotal e me mandou embora. Minha fé foi fortalecida. Em casa, não me deixava mais abater pelas circunstâncias. Como serva devota eu aguardava o tempo de Deus para minha benção chegar. Meu coração se alegrou de tal maneira que a beleza estampou o meu rosto. Meu marido desejou estar comigo. Ah! O Senhor lembrou-se de mim e concebi um filho. Seu nome: Samuel, significa "Pedido a Deus". A família estava completa. Samuel não era o primogênito de Elcana, mas seria o filho usado para servir a Deus, como eu havia prometido. Samuel seria Nazireu desde o seu nascimento e por toda vida. Seus cabelos não seriam cortados e cresceria sob os cuidados de Eli para aprender a servir a Deus. E Elcana sabedor de tudo que se sucedeu, concordou comigo. 




Chegado o tempo de ir à Siló para as ofertas pedi consentimento a Elcana para ficar em casa com Samuel até que fosse desmamado. Mais uma vez Elcana foi compreensivo e concordou comigo. Decorridos três anos, Samuel desmamado, era tempo de ir ofertar, em Siló. No Tabernáculo, levei o menino a Eli. Senhor!! Lembra-se de mim?! Sou aquela mulher devota a quem o Senhor abençoou. Deus atendeu minha oração e me deu o filho homem que pedi. Agora trago-o para ser criado na Casa de Deus, e cumprir minha promessa, todos os dias de sua vida. Agradecida à Deus cantei e louvei a Deus que tudo sabe. Ao Deus que pesa nossas ações e nos abate e eleva. Samuel ficou. Voltei para casa com a missão de interceder por meu filho. Orei para que Deus o abençoasse e o livrasse da influencia das práticas erradas dos filhos de Eli. E Samuel servia a Deus e crescia em estatura, e tornava-se o predileto de toda gente. Ano após ano eu levava uma túnica de linho igual ao manto do Sacerdote, para Samuel vestir. Abençoados por Eli tivemos mais três filhos e duas filhas. Depois de muito tempo sem falar diretamente com os profetas, Deus manifestou sua Palavra à Samuel, em sonho. E eis que Samuel se tornou o último juíz de Israel, abençoado e usado poderosamente por Deus. Para encerrar este testemunho digo que o marido deve amar sua mulher. Digo que o Império da mulher casada é seu lar. O casal deve orar junto. Devem ser concordantes nos pedidos e votos que fizerem diante de Deus. Não murmurem. Não olhem as circunstâncias. Não deixem as almas se abaterem. Derramem-se sem reservas, ao Senhor, pela sua família. Sejam obedientes. E Deus concederá o desejo dos seus corações. Alegrem-se no Deus da sua salvação que é onisciente, onipotente e onipresente. Estejam dispostos a entregar-lhes seus planos e a cumprirem sua divina vontade. Prontifiquem-se em serem canal de benção onde vocês estiverem. Deus é fiel e será louvado

texto de Raquel Soares

16 de mar. de 2016

Muito prazer, eu sou Abraão

Nasci em Ur, mas depois de casado com Sarai, sai com meu pai, esposa e sobrinho para Harã. Ali meu pai faleceu e o Senhor mostrou-me o caminho a seguir. Passei pela terra prometida e fui ao Egito. Ali prosperamos, mas fomos banidos, pois menti ao faraó dizendo ser Sarai minha irmã, não esposa. Voltamos a Canaã e separamo-nos meu sobrinho Ló e eu.
O Senhor já havia prometido fazer de mim uma grande nação, mas minha esposa era estéril. Esperamos pela promessa e como ela não se cumpria, decidimos então que eu me deitaria com uma das servas de minha esposa, Agar. Deste ato nasceu Ismael. Cria que este seria o descendente prometido por Deus, contudo o Senhor tinha outros planos. Estabeleceu, pela circuncisão, um pacto comigo. Ele mudou meu nome para Abraão e o de Sarai para Sara. Ele tocou minha esposa e esta, mesmo em idade avançada, concebeu a Isaque.
Temendo pela vida de Isaque, e convencido por Sara, expulsei Agar e Ismael do acampamento. Estava certo que o Senhor os protegeria, pois me prometera fazer de Ismael também uma grande nação.
Isaque crescia em estatura e sabedoria e então o Senhor colocou-me à prova. Mostrou-me o local onde faria um holocausto. Conduzimos, Isaque e eu, todo o material, exceto o animal a ser sacrificado. Isaque desconfiou, mas eu nada lhe disse. Teria que sacrificar o filho que Deus me prometera. Aquilo me apertava o peito e inquietava minh’ alma, mas como não cumprir Sua ordem?
Isaque percebia o que estava para acontecer, mas não fugiu ou se deixou abater. Ele confiava em mim, como eu confiava no Senhor. Estava prestes a dar o golpe fatal, quando Deus me impediu. Ele estava satisfeito com a minha fidelidade a Ele. Proveu-nos de um cordeiro, fizemos o holocausto e adoramos ao Senhor.

Aos 137 anos de idade perdi minha esposa, mas ganhei uma nora. Rebeca desposou meu filho e me deram netos. Casei-me novamente e tive mais 6 filhos. E aos 175 anos o Senhor me chamou.

Texto de Walcício Soares

3 de fev. de 2016

Muito Prazer, meu nome é Eli.

Resolvi dar uma passada por aqui com o propósito de falar um pouco de meus sentimentos, do que fiz como sacerdote e confessar meus erros. Aliás, acho que minhas confissões poderão de certa forma ajudar você.
Normalmente sempre que falam de mim associam minha história a Samuel. Sou conhecido como um sacerdote gordo, que não sabia controlar os filhos e morto quando caí de uma cadeira.
Para quem não sabe, além de sacerdote eu era juiz. Fui o primeiro a acumular as duas funções. Sentiu a responsabilidade! Pois é, foi aí que cometi meu maior erro. Achava que conduzir o povo, cuidar dos sacrifícios e do templo eram as coisas mais importantes da minha vida. Só fui descobrir mais tarde que na verdade, o que eu tinha de mais precioso era minha família. Quantas vezes meus filhos, Hófni e Finéias me chamavam para brincar, queriam minha atenção e eu dizia que não. Afinal eu estava sempre muito ocupado. Diversas vezes os via fazendo coisas erradas e não os corrigia, pois isso dava trabalho, era melhor deixar passar. Eu já tinha tanto problema do povo para resolver… Deixei que os anos passassem e meus filhos foram crescendo sem direcionamento; conselhos e o pior, sem Deus. A falta de correção aos meus filhos acabou não só os destruindo como atrapalhando a minha vida como lider do povo. Eu era um pai ausente.
Lembro-me bem do dia em que Ana, mãe de Samuel, chorava desesperada no tabernáculo. Achei que ela estava bêbada, sua forma de busca a Deus era desesperadora! Mas tudo que ela queria era um filho. Essa história vocês conhecem bem. Ela clamou a Deus e a resposta divina foi Samuel. O que eu não sabia era que Ana dedicaria aquela criança a Deus.
Quando o menino completou… Não me lembro bem, mas acho que 8 anos, Ana foi ao templo e me entregou Samuel, explicando que ele ficaria comigo. Naquele momento quando vi o menino, foi como se Deus me dissesse: “Eli, este menino é a sua chance de acertar. Não erre com ele da mesma forma que você errou com seus filhos”.
Samuel, vocês sabem, cresceu temente a Deus e sob os meus cuidados. Criei Samuel prestando atenção em cada coisa que ele fazia e precisava. Um dia Samuel quebrou um castiçal. Tinha certeza que havia sido ele, mas ele negava insistentemente. Na hora de dormir conversei com Samuel novamente sobre o castiçal quebrado e expliquei que Deus ficaria muito triste em saber que seu servo estava mentindo. Beijei Samuel e fui deitar-me. Ainda mexia-me na cama tentando encontrar uma posição em que minhas costas não doessem e o menino vem correndo, com lágrimas nos olhos me diz: “Perdão senhor! Eu fiquei com medo que brigasse comigo, por isso menti. Eu quebrei o castiçal”. Aquele momento foi uma mistura de sentimentos. Fiquei emocionado por ter levado Samuel a confessar e corrigir seu erro, mas recordei-me de quantas vezes poderia ter levado meus filhos ao arrependimento e não fiz. Falei para Samuel que Deus o havia perdoado, recomendei que não fizesse mais aquilo e lhe dei o abraço mais apertado de sua vida.


Teve um outro momento em que o menino achou que eu o estava chamando. Foi quando eu percebi que na realidade era o próprio Deus que queria falar com ele. Naquele momento disse para que se ele ouvisse alguém o chamando respondesse: “Fala Senhor, teu servo está ouvindo.” Ele saiu como uma flecha em direção ao lugar que ele costumava dormir. Eu agradeci a Deus pela oportunidade de ter cuidado de Samuel e ajudado a moldar o seu caráter. Naquela noite Deus revelou coisas terríveis que aconteceriam comigo e minha família devido a minha omissão como pai. Samuel, muito triste, mas sabendo que não deveria faltar com a verdade, não escondeu nada e revelou o que Deus havia dito. Como tudo poderia ter sido diferente se Hófni e Finéias tivessem tido ao seu lado o mesmo Eli que Samuel conheceu !

E é isso. As vezes deixamos nosso trabalho e até mesmo o templo ocupar o espaço da coisa mais importante que temos, a nossa família. Samuel foi a prova viva que eu tinha capacidade para ter sido um bom pai. Talvez você não tenha outra oportunidade. O trabalho é importante, o templo também. Mas sua família deve sempre estar em primeiro lugar. Talvez você possa estar pensando: “Deus é que deve estar em primeiro lugar!” Aí vai uma dica Importante para você, não confunda templo com Deus.

Texto do Alexandre Oliveira

2 de fev. de 2016

Muito prazer, eu sou Isaque.

Era madrugada, todos ainda dormiam. Meu pai com um beijo carinhoso despertou-me e disse: “Isaque! Acorda! Vamos sacrificar ao senhor.” Estiquei as pernas, os braços e como desejei ficar mais algumas horas deitado. Meu corpo ainda doia das atividades do dia anterior, mas levantei.
Caminhamos diversas horas e uma coisa me incomodava. Meu pai adorava falar, contar histórias, aconselhar e sempre mostrava-me as maravilhas que Deus tinha feito em nossa família. O velho sempre contava sobre a promessa divina de que nós seríamos uma grande nação. Naquele dia ele não dizia uma só palavra. Às vezes balançava a cabeça como se algo estivesse errado. Fiz várias tentativas de diálogo, mas meu pai pareceia entorpecido. Na primeira vez, indaguei onde iríamos sacrificar a Deus. A resposta rápida foi: “Deus mostrará”. Em seguida perguntei se faltava muito pois minhas alparcas estavam queimando! Outra resposta rápida: “Deus é quem sabe”. Eu sabia que algo não estava certo. Decidi então abraçar meu velho e seguimos calados toda a viagem. Depois de muito caminharmos, fitei meus olhos no rosto de meu pai e percebi uma lágrima escorrendo. Ia perguntar o que era, mas resolvi apenas apertá-lo mais forte e continuar caminhando. Sentia que seu coração estava muito incomodado.
Não levamos nenhum cordeiro, achei estranho, mas logo concluí que compraríamos um perto do local do sacrifício. Quanto mais caminhávamos, maior era a angústia do meu velho. O que ele estaria pensando? Dei uma parada e disse: “Pai está tudo bem?” Ele olhou bem dentro dos meus olhos e com um olhar desolado me disse: “Ficará meu filho. Ficará tudo bem.” Eu nunca tinha visto meu pai assim…
Caminhamos por mais algum tempo, aquele silêncio angustiava meu coração. Foi quando chorei. Não sabia porque, mas eu chorei. Meu pai me abraçou forte, apontou o monte e disse: “É aqui.” Nós choramos. O pai chorava sabendo o que aconteceria, já eu chorava a angústia de meu pai. Meu coração acelerou. Pegamos a lenha, o velho ordenou que nossos servos aguardassem ali pois seríamos só ele e eu no monte do sacrifício.
Bem perto do local designado, fiz a pergunta que esclareceu tudo para mim. “Eis aqui a lenha, mas onde está o cordeiro para o sacrifício?” Entre lágrimas, com seu rosto marcado pelo sol e pelos anos, o velho Abraão responde: “Deus proverá.” Naquele momento entendi que eu era o sacrifício. Meu coração disparou ainda mais e pensei em correr. Ao mesmo tempo uma sensação de paz foi tomando meu ser e ouvi uma voz interior dizendo que eu não deveria temer pois o Deus do meu pai estava comigo e eu fazia parte da promessa. Arrumamos a lenha sobre o altar e sem que meu pai pedisse, estiquei meus braços. Não trocamos nenhuma palavra. Já com a corda enrolada recebi um abraço. O pai chorou, o filho chorou. Ele me acompanhou até o altar e ali eu deitei. É estranho, mas meu coração continuava em paz.



Meu pai estava prestes a sacrificar o filho que ele amava. Eu não tinha dúvidas disso, pois sentia seu amor para comigo em cada uma das suas atitudes. Quanto a mim, estava pronto para ser um instrumento nas mãos de meu pai para atender um pedido de Deus, ainda que tudo parecesse loucura, um pai entregar o seu próprio filho em sacrifício. Naquele momento pude perceber, de verdade, o que Deus representava para o meu pai. Fechei os olhos e pedi a Deus: “Se possível, não deixa isso acontecer comigo. Mas que acima de tudo, tua vontade prevaleça.” Mal terminei minha oração e meu pai estava desamarrando-me, rindo e chorando compulsivamente. Mostrava-me o cordeiro para o sacrifício preso nos arbustos. Sorriu o pai, sorriu o filho.


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu filho unigênito para nos salvar.”
Texto do Alexandre Oliveira

Raabe - Ela escolheu acreditar, aceitou ajudar e decidiu confiar

   Sou Raabe e a primeira coisa que falam de mim é que sou prostituta, mas o motivo que levou-me à prostituição ninguém procura saber.
   Sou de família pobre, da classe mais baixa da sociedade, com pai e mãe idosos, irmãos e outros para sustentar.
   Na época, a sociedade patriarcal não valorizava a mulher que não era contada no censo, nem tinha acesso ao estudo ou ao mercado de trabalho.
   Família que não tinha escravos, era a mulher responsável por todos os serviços domésticos, inclusive pegar água no poço e, se necessário, ajudar também na lavoura.
   Outro motivo que levava à prostituição era o abuso sexual que a mulher sofria desde a adolescência, depois era marginalizada e considerada culpada.
   Alguns pensam que é opção da mulher, mas vou mostrar, com a minha vida, que não é assim.
   Sou uma mulher muito bonita, atraente e cobiçada pelos homens.  Imagine o que isso significava para uma mulher pobre, precisando de dinheiro até para o alimento, sendo muito assediada.
  Apesar da discriminação minha vida mudou.  Eu hoje faço parte da galeria dos grandes Heróis da Fé com Abraão, Sara, Joquebede e outros.



   Foi assim que tudo aconteceu...  Eu já tinha ouvido falar no Deus de Israel, que amava o seu povo e fazia milagres para favorecê-lo, além de ser justo e sempre usar de misericórdia para com ele.
   Certo dia fui procurada por dois espias israelitas, que me pediram pousada para escondê-los, porque se os soldados do rei de Jericó os encontrassem, eles seriam mortos.
   Foi um momento de escolha e decisão muito difícil para mim, pois se eu negasse a ajuda eles seriam mortos e se eu os abrigasse e fosse descoberta, eu é que morreria.
   Todos me conheciam como mulher corajosa pela maneira como eu enfrentava os problemas sem me deixar abater. Eu também era misericordiosa, pois não pensava só em mim, mas cuidava de minha família.
   Interessante que eu confiava no Deus de Israel e apresentei-lhes uma condição: Se Israel invadir Jericó, que eu e toda minha família fôssemos poupados.
   Eles concordaram, mas disseram que eu deveria identificar a minha casa, colocando na janela uma corda escarlate e também não poderia revelar nada sobre a presença deles em Jericó.
   Eu os escondi tão bem que os soldados do rei não os encontraram no eirado entre as canas do linho. Depois dei fuga para eles, fazendo-os descer por uma corda, pela janela, pois minha casa ficava sobre o muro da cidade.
   Tempos depois Israel invadiu Jericó, vencendo e queimando tudo, mas eu e minha família fomos salvos, com todos os nossos pertences.
   Eu nunca poderia imaginar que minha vida fosse mudar radicalmente, porque eu confiei no Deus de Israel, agora também meu Deus, que foi fiel e usou comigo de misericórdia.
   Fui viver em Israel e casei-me com Salmon.  Tive Boás, um bom filho, que mais tarde, casou-se com Rute, moabita, que foi bisavó do Rei Davi.
    Eu não disse que a prostituição não era uma opção minha?  Deus restaurou-me colocando-me na posição de privilégio de fazer parte da árvore genealógica de Jesus, o Salvador da humanidade.
   Agradeço a Deus por ter me dado sabedoria para fazer a opção certa e ter acreditado...ajudado...e confiado.  Ele usou-me para fazer parte dos seus  planos em relação a Israel.
   Ainda bem que Deus não é preconceituoso como os homens e está sempre pronto para perdoar e dar nova oportunidade a quem n'Ele confiar.

   Assim como salvou Abraão, que era da classe mais alta, também salvou a mim, Raabe, da classe mais baixa e conhecida como a "Prostituta de Jericó".

Texto de Palmyra Duarte

29 de jan. de 2016

Rute, a companheira

Sou RUTE. Meu nome no hebraico significa "companheira". Isso já seria um bom depoimento sobre mim. Alguns acreditam que o significado do seu nome pode influenciar no seu caráter, na personalidade, na sua identidade. Pode até ser que de certa maneira isso aconteça, pois minha sogra diante das tragédias que viveu desejou mudar seu nome. No entanto, eu aprendi que diante das circunstâncias da vida temos que tomar decisão. Fazer escolhas. Que caminho seguir? Há sempre um bom caminho a trilhar, o caminho que nos fará florescer e frutificar, e precisamos aprender a reconhecê-lo e escolhê-lo. Com a(s) escolha(s) feita(s) damos algo ao mundo que só quem soube escolher, poderia conceber. Nossa! Isso mesmo: A vida nos traz lições a serem aprendidas de tal maneira que vamos amadurecendo e deixando boas lições , por gerações.


Eu fui introduzida na história de Israel por ser esposa de Malon, um israelita, que veio para Moabe com toda sua família. Quando me casei, minha sogra era viúva, mas vivíamos felizes. Até que a situação ficou deveras difícil pois agora, éramos três mulheres viúvas em casa. Eu e Orfa, jovens, voltaríamos para casa dos nossos pais e nos casaríamos novamente. Resolvido! Mas, e Noemi?! Viúva e idosa, sem um homem que cuidasse dela, e sem recursos próprios estaria na miséria. Imagine a via crucis: Viúva, velha, amargurada, sem marido, sem filhos, sem netos, com duas noras viúvas e ainda por cima Moabitas! Mas, decidimos voltar com ela para Belém. Minha sogra, buscava nosso bem. Era conscienciosa e abençoadora. Eu me compadecia dela. Ela insistia que a deixássemos. Então, Orfa voltou. Eu não! Noemi insistiu para que eu a deixasse, pois nada tinha a me oferecer, mas eu escolhi viver com ela. Eu escolhi o povo dela. Eu escolhi o Deus dela. Tinha Noemi como uma mãe. Onde ela fosse e vivesse ou morresse, era ali que eu queria viver e ser sepultada. Diante do meu voto solene continuamos a viagem e chegamos ao inóspito Belém. E sendo moabita, não poderia pertencer a comunidade de Israel até a 10ª. geração. Estava perdida! Mas, disposta a compartilhar as durezas da vida diária de mulher estrangeira e viúva na terra de Israel, para honrar minha sogra idosa, viúva e temente a Deus. A providência divina me levou a rebuscar do início ao fim da sega das cevadas, nos campos deste parente distante, Boaz. Deus o fez notar minha presença, não só por ser estrangeira, mas pela história de amor por minha sogra. Boaz reconheceu minha condição desfavorável e orou para que Deus me abençoasse e me recompensasse. E deu ordens para que eu colhesse e debulhasse juntamente com suas servas. Quanta alegria!! Diante da miséria, alcançamos misericórdia nos Campos de Boaz. E Noemi, sendo boa conselheira, me orientou de forma que pudéssemos despertar o interesse de Boaz em resolver nossa situação, sendo nosso Remidor. Mas, Boaz era velho! Será que não havia alguém mais jovem para nos remir?! No entanto, a ideia de preservar a família de Noemi, de sua extinção, me fez escolher ser obediente a minha sogra. E Boaz, adquirindo a condição de remidor, casou-se comigo. Eu que era estrangeira, recebi um nome. Fui aceita na comunidade israelita como mulher virtuosa. O Senhor me concedeu um filho e uma nova família. Noemi me ajudou na criação de Obede. E gerei os descendentes do Rei Davi e do próprio Messias. As escolhas que fiz mudaram minha vida. Saiba que para escolher necessitamos de parâmetro. E o parâmetro que usei foi escolher viver o que Noemi ensinara: Deus abençoa a todos que se mantém obedientes à Ele e entendem sua missão na terra. Eu sou sujeita a paixões, como vós. Fiz escolhas diante de Deus e deu certo. E você?

Texto de Raquel Soares.

19 de jan. de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 5) final

Tudo estava perfeito. Olhava para trás, pensava na vida e relaxava. Era muita realização. A satisfação alimentava minha história e consolava minha velhice. Minha família reunida, os filhos dos meus filhos integrados no mesmo propósito, o mundo sendo reconstruído a partir de meu temor ao Senhor. Eu plantava e colhia. Eu dominava as aves, os répteis e os grandes animais também. Elaborávamos projetos pra lá de interessantes. Como já estava avançado em idade mergulhei na pesquisa. Inventava combinações, descobria alimentos curiosíssimos. Inventava molhos deliciosos. Num daqueles dias de colheita, estava com o cesto carregado e, para não deixar um cacho de uvas cair, estiquei a mão. No reflexo amassei o fruto. Confesso que fiquei triste por ter desperdiçado um pouco da colheita. Aproveitei, porque ninguém é de ferro, provei a gota que escorria na minha mão. Não sei porque aquele movimento tão natural, de lamber o sumo da fruta, me intrigou e estimulou. Resolvi pesquisar.
Desenvolvi e anotei este processo: Colher o fruto. Amassar a fruta, agora em maior quantidade e recolher o suco que ainda estava muito espesso num tonel de madeira. Este trabalho cansava tanto que deixei para o dia seguinte. Voltei e quando provei um pouquinho, percebi que ainda estava muito grosso. Tinha que pensar numa forma de separar o suco do bagaço. Pensei e no outro dia, com um tipo de rede bem trançada, filtrei e separei o bagaço que chamei de mosto. Provei um pouquinho, ainda estava muito forte. Ainda mais um dia até eu perceber que ainda havia casca da uva e ela havia subido. No quinto dia, coloquei mais água e filtrei agora com um pano bem limpo dentro de um recipiente com tampa. Nem me lembro porque, mas deixei o experimento de lado. Quando voltei dias depois, achei que tinha perdido o processo. Filtrei novamente o suco e ao provar me surpreendi com o sabor incomum que havia conseguido. Fui para tenda com um bocado daquele líquido e revi todo processo que havia anotado. Lia e bebia. Bebia e lia. Bebia, bebia e não conseguia parar de beber. A bebida era divina! É o fruto da vide, da vinha, por isso, mais tarde tornou-se o famoso vinho.


Bem que gostaria de terminar esse testemunho por aqui mas, infelizmente, tenho que dizer que o resultado dessa bebedeira fez com que eu perdesse completamente o controle. Nem me pergunte como aconteceu. Só descobri o que houve no dia seguinte, debaixo de uma dor de cabeça nunca antes vivida. Descobri, na verdade, sob testemunho de meus filhos que eu cheguei a ficar completamente nu, jogado dentro de minha tenda. O que aconteceu foi o seguinte: meu filho Cam, pai de Canaã, me viu naquele estado e se divertiu tanto que resolveu compartilhar com seus irmãos. Ainda bem que Sem e Jafé tiveram compaixão de mim e evitaram dano maior me compondo e retirando o líquido de perto.
A verdade é que ninguém cai se estiver sentado, ou pelo menos, muito flexível e alerta. Eu achava que estava no topo do mundo. Todos os seres humanos só se lembrariam de Noé, eu pensava. Até Adão ficaria esquecido. A história começaria com o meu nome e com o meu relacionamento com Deus. Cuidado! Todos os grandes danos começam da presunção. O orgulho precede a destruição. Antes da queda normalmente o coração se envaidece. Você deve estar pensando: Que forma dura de aprender! É verdade. Eu poderia passar sem essa, mas fazer o que, não é? Quem te disse que um homem de grandes feitos acerta sempre? Tome cuidado com suas grandes vitórias e fique com os pés no chão. Nunca perca de vista sua humanidade. Infelizmente acabei manchando a minha invenção mais extraordinária com o meu comportamento. Imagine o que seria de mim, qual seria a minha fama se eu tivesse me comportado?
Deus sempre faz tudo bem. Quanto a mim...sou Noé. O resto deixa pra lá!

18 de jan. de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 4)

Saímos da arca.
Um passo de cada vez, olhando para todos os lados, saímos.
O mundo é lindo! Era como voltar o tempo, era como um sonho, era como voltar ao primeiro jardim.
E o Senhor caprichou! Tudo estava lindo 'naquela nova casa"!
Não demorou muito e, em silêncio, fui recolhendo pedras e reunindo. Minha esposa, meus filhos e noras fizeram o mesmo. Ali construímos um altar. A arca no alto do monte, o barulho da cachoeira, o cheiro bom de mato molhado... nem sei direito quem começou, mas começamos a cantar:
"Senhor meu Deus, quando eu maravilhado,
Fico a pensar nas obras de Tuas mãos
O céu azul de estrelas pontilhado,
O seu poder mostrando a criação
Então minh'alma canta a Ti, Senhor:
Quão Grande és Tu.
Quão Grande és Tu..."

Nosso primeiro ato não poderia ser outro. Queríamos que agradecer. Agradecer pelo que passou. agradecer pelo que estávamos vivendo e agradecer pelo que começaríamos a fazer. Me senti o novo Adão. Minha família ali e aquela imensa responsabilidade de construir um novo jeito de ser gente.
Sei que vida é feita de ciclos. A natureza é regida por este instrumento. Foi o próprio Deus, o criador, quem prometeu que 'enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão." E continuou, 'dominem sobre tudo, comam de tudo só não bebam sangue'. Sangue é vida! Não derrame sangue. Quem derramar sangue verá seu próprio sangue derramado. Vou fazer um acordo como vocês, disse o soberano. E, num instante o céu revelou um arco multicolorido de uma beleza extraordinária.



Como você acha que passamos aquela noite?
Ali pertinho da cachoeira havia um gruta. Fomos para lá e eu fiquei olhando o céu apinhado de estrelas. Quase que automaticamente voltei a pensar no meu bisavô, Enoque. Enoque andou com Deus, e o Senhor o tomou para si". Lembrei do vô contando a história. Quando a gente é velho as memórias mais fortes são as que repetimos, repetimos, repetimos tantas vezes que parecem que sempre estiveram marcadas lá no fundo do coração.
Dei um sorrisinho de canto de boca e pensei:
Enoque andou com Deus mas eu, eu naveguei com o Senhor.
Sei que não fiz nada para merecer mas Ele se lembrou de mim e de minha família. Vou repetir esta história todos os dias. A arca vai ficar lá no Ararate - lugar sagrado é seu significado. Vou construir uma casa. Vamos estabelecer uma população que teme ao Senhor. Será um paraíso de verdade. Um lugar sem violência, sem desrespeito, sem falcatruas... um lugar de gente que teme e obedece ao Senhor.
-Vem dormir 'home'! Ouvi do fundo da caverna.
E foi ali, naquela noite, que percebi o significado do meu nome. Noé. Noé é descanso, é repouso.
Obrigado Senhor!

"Não tenhas sobre ti um só cuidado, qualquer que seja
Poi um, somente um, seria muito para ti.
É meu, somente meu todo trabalho
E teu trabalho é descansar em mim"

https://www.youtube.com/watch?v=4_7bAF8Je-c&index=21&list=RDQgqAervfz-c

16 de jan. de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 3)


Muito dias na arca. Muitas tardes na arca. Muitas noites na arca. Quase um ano dentro daquele caixote. Oito pessoas e um 'zoológico inteiro' dentro daquele grande barco.
Quando a chuva parou parecia o começo do fim. Silêncio. Imenso silêncio lá fora da arca. O cheiro se intensificou com o calor do sol e, por mais que reclamássemos, não adiantava. Acho que acostumamos até com aquele cheiro... Tudo era monótono, tudo igual té que a arca parou. Não havia mais o sacolejo das ondas. Não havia mais a batida da água no casco do grande 'caixote' e a gritaria dos bichos depois de cada onda. Nós sabíamos que agora é uma questão de tempo. Mas, quanto tempo?
E a curiosidade, do que tinha ficado lá fora? Que realidade encontraríamos? Eram tantas questões, tantas perguntas, tantas dúvidas... Este foi o momento de maior expectativa.
Eu subia todos os dias para a parte mais alta da arca, pela manhã bem cedo, quanto todos ainda estavam dormindo e também no final do dia. Ficava lá, em silêncio, esperando a voz divina. Quase um ano na mesma rotina e nada. Todos os dias, numa teimosia de fé, fazia a mesma coisa. Foi quando num desses dias subi e percebi que bem perto de mim, no final da tarde estava um dos corvos que tínhamos na arca. Como gritava aquela ave de penas pretas. Resolvi, quase num impulso, deixá-lo ir. Abri a janela da arca e soltei o bicho. Ele foi e voltou. Comecei a rir baixinho de minha arrogância. Soltei ou, no fundo, fiquei com raiva e joguei fora o corvo que gritava e me irritava? Quando ele voltou, peguei o bicho de volta, olhei bem para os olhos pretos dele, que só de perto poderia ser observado, e assim comecei a mudar o ritual das tardes de reflexão. Eu subia pela manhã sozinho para ficar em silêncio, esperando a voz divina e à tarde, soltava o corvo. O corvo acabou virando meu companheiro. Foram vários dias nessa rotina. Soltava o bicho e ele voltava. Ele ia e voltava, ia e voltava. Logo comecei a observar que o tempo de voo estava se modificando. Numa manhã subi e, desta vez fiz diferente. Levei comigo uma pomba. Olhei o corvo mas resolvi mudar. Soltei a ave branca e ela demorou tanto quanto o último corvo, e voltou. Decidi esperar uma semana sem corvo e sem pomba. Tentei entender o que se passou. Depois desses sete dias, repeti a experiência com a pomba. Soltei a ave logo cedo e ela não retornou logo. Fique preocupado mas, quando minha esposa chamou para tomarmos café da manhã, deixei a janela aberta e fui cuidar das outras tarefas. Quando subi novamente, no final da tarde, lá estava a pomba entrando pela janela, naquele instante, com um ramo de oliveira em seu bico. Desci no mesmo instante gritando, com a pomba presa nas mãos e mostrando para todos a pomba e o ramo de oliveira que ela trazia no bico. Nos reunimos, refletimos e discutimos o que fazer. Sugeri que esperássemos mais uma semana para soltarmos a pomba novamente. Assim combinamos, assim fizemos. Soltamos juntos a pomba ainda pela manhã e à tarde subimos para aguardar o retorno do pássaro. A pomba não voltou. Frustração total. Sem pomba, sem sinal. Pedi para ficar mais um tempo sozinho e, por incrível que pareça, Deus falou:

Sai da arca, tu com tua mulher, e teus filhos e as mulheres de teus filhos.

Todo o animal que está contigo, de toda a carne, de ave, e de gado, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, traze fora contigo; e povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra. (Gn 8.16 e 17)

Eles somos nós


A Bíblia é o registro da revelação divina. Sendo assim, os episódios, os dramas e também os personagens servem como 'pano de fundo' para revelar o caráter divino. 
A Bíblia não é um livro de biografias, nem hagiografia (descrição de uma vida de virtudes heroicas). As Escrituras não estão interessadas em entretenimento ou 'fofocas espiritualizadas'. O que temos é registro da Revelação de Deus. As histórias, os personagens mostram um Deus que se relaciona, se preocupa, se envolve e deseja travar parceria com a criatura mais parecida com Ele mesmo. Um dos recursos que os autores bíblicos utilizam é o chamado 'antropomorfismo' - colocar sentimentos e atitudes humanas em Deus. Esse recurso é muito útil para tentar entender Deus a partir do nosso ponto de vista.
Quando leio o drama de Abraão e a coragem de enfrentar uma mudança, quando vejo Noé e a maneira como encara o desafio e prepara a arca,  mesmo contra tudo que era visível (Hb 11). Aliás, vale a pena parar para ler o no capítulo dos heróis da fé, Hebreus onze. Lá o autor, depois da imensa lista, questiona; 'que direi mais? Esses dos quais o mundo não foi digno..."
Eles somos nós!
Os personagens são, como diz Tiago, gente sujeita às mesmas paixões que nós, ou seja, gente como a gente. Eles são exemplo positivo e, algumas vezes negativos, que devemos observar. A escolha sempre é responsabilidade nossa, mas gosto de pensar e preciso enfatizar que 'eles somos nós'.
Todos os que seguimos a Palavra, temos exemplos em nossa vida. Quem, quando pensa em vida cristã não tem uma referência humana? Isso ocorre em todas as áreas da vida. Escolhas necessitam de parâmetros.
No mundo das artes fica muito claro que todo artista começa imitando. Na realidade, começa selecionando o que e a quem imitar.

Vou terminar transcrevendo uma parte do livro 'Roube como um artista" de Austin Kleon:
"Copie seus heróis. Perceba onde você fica aquém. O que existe aí que o torna diferente? Isso é o que você deveria ampliar e transformar em seu próprio trabalho.
No fim das contas, a mera imitação de seus heróis não é homenagem. Transformar o trabalho deles em algo seu, sim, é homenageá-los. Dando algo ao mundo que só você poderia conceber"

Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta.
Hebreus 12.1

5 de jan. de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 2)


Como havia dito, fui para casa e detalhei tudo, tudinho para a minha esposa e meus filhos. Antes que eles tivessem qualquer reação contrária, avisei logo que o plano divino alcançava também cada uma de minhas noras.
Daquele dia em diante trabalhamos, mas trabalhamos muito para cumprir tudo que o Criador havia mandado. A cada finalzinho do dia, quando a noite se aproximava, conferíamos o andamento da obra e ainda planejávamos juntos o dia seguinte. Cada um de nós tinha sua tarefa e, vez por outra, revezávamos para que o trabalho não parasse e nós continuássemos focados na tarefa. 
Quero confessar um fragmento de orgulho toda vez que lembro das palavras do Senhor:
...com você estabelecerei a minha aliança, e você entrará na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos (Gn 6.18). 
Como esquecer dessas palavras? Acordava a cada dia, sem nenhum sinal de chuva. E de que valia isso enquanto construíamos a arca? O que deu sentido e motivação a cada dia, a cada manhã, foi a promessa que o Senhor fez. Quando alguém pensava em desanimar eu dizia: Vamos! Coragem! Deus escolheu a nossa família! Deus escolheu você para reconstruir o mundo, eu repetia. Sabe de uma coisa, a gente enfrenta qualquer dificuldade quando tem convicção e fé. Você já deve ter pensado que a 'fama' de 'cabeça-dura' não ficou apenas comigo. Se pensou, acertou. Todos os nossos vizinhos começaram a nos chamar de loucos. Não entendiam nada do 'caixote'. Eles pensavam que estávamos construindo uma grande casa esquisita. De certa maneira, eles estavam certos. Era a casa que Deus havia planejado para nos preservar. Eu e minha família fizemos tudo exatamente como o Senhor havia ordenado.
Num desses momentos de avaliação, num fim de tarde, o Senhor apareceu novamente e disse:
"Entre na arca você e sua família!" 
Esta ordem era a 'senha' para conduzirmos os animais para dentro da grande caixa de madeira. Foram sete dias, já morando na arca, acomodando cada bicho em seu lugar, acostumando com a nova residência até que a chuva começou.
Chuva! Vou te dizer uma coisa e não é brincadeira não. Você não tem ideia do que é chuva. Água pra todos os lados. Aguá vindo do céu, água brotando da terra aos borbotões. Muita gritaria misturada com árvore quebrando, barro descendo, raios, trovões e muita chuva, muita chuva caindo.
Quarenta dias durou o Dilúvio sobre a terra, e as águas aumentaram e elevaram a arca acima da terra. As águas prevaleceram, aumentando muito sobre a terra, e a arca flutuava na superfície das águas. As águas dominavam cada vez mais a terra, e foram cobertas todas as altas montanhas debaixo do céu. As águas subiram até quase sete metros acima das montanhas.
Todos os seres vivos que se movem sobre a terra pereceram: aves, rebanhos domésticos, animais selvagens, todas as pequenas criaturas que povoam a terra e toda a humanidade. Tudo o que havia em terra seca e tinha nas narinas o fôlego de vida morreu.Todos os seres vivos foram exterminados da face da terra; tanto os homens, como os animais grandes, os animais pequenos que se movem rente ao chão e as aves do céu foram exterminados da terra. Só restaram Noé e aqueles que com ele estavam na arca. E as águas prevaleceram sobre a terra cento e cinqüenta dias. (Gn 7:17-24)
Você dorme e está chovendo, acorda e continua chovendo. De manhã chuva, à tarde mais chuva. Em alguns momentos achamos que não existia mundo e que tudo que havia sobrado era aquela arca. A arca era nosso mundo. E a arca estava cada vez menor. Mas houve um dia em que acordamos sem o barulho da chuva. Tudo que ouvíamos era o som das ondas batendo na arca. Dava para perceber as frestas dos raios solares dentro do 'caixote' e o balanço da arca.


31 de dez. de 2015

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 1)


Meu nome é Noé. Meu pai se chamava Lameque. Ele achou que eu seria simbolo de 'descanso', de 'repouso' por isso me deu este nome. Meu pai e o 'vô' Matusalém, que todo mundo chamava de 'o velho', conheceram o primeiro homem. É verdade! Eles conheceram Adão. O homem esculpido pelo Criador.
Meu pai me contava histórias muito interessantes sobre Adão e as experiências vividas na região do Éden. Eu, que sempre fui um menino curioso, cresci observando a natureza e, em cada detalhe que reparava era impossível deixar de perceber a beleza e a organização da criação divina. Tinha uma 'coleção de lascas' de árvore arranhadas com desenhos copiando esquemas da natureza. Quando adolescente saí para procurar 'o velho', meu 'vô". O "vô" era muito bom de papo. Ele mostrava de maneira tão poética a beleza da criação e nunca deixava de contrastar a organização dos ciclos da vida com, por exemplo, a bagunça e o estado de corrupção dos seres humanos. O "vô" sempre me falava que meu 'biza', pai dele, não tinha morrido. Eu, da primeira vez, fiz como todo mundo sempre fazia. Fui perguntando onde ele estava. O 'vô" deu uma risada marota e disse que o pai não tinha morrido mas que não estava mais aqui. Como assim? - eu perguntava. E ele respondia: Enoque andou com Deus, meu filho. Deus pegou Enoque de volta. Deus tirou meu pai, dizia ele, desse mundo doido.
Quando voltei da casa do 'vô' decidi ser diferente. Eu achava que andando com Deus eu também seria levado para o paraíso. É claro que eu não sou besta e nunca falei nada disso com ninguém. Na verdade, eu nunca fiz nada de extraordinário. As únicas coisas que eu fazia e que deixava as pessoas impressionadas era me relacionar com os animais e fazer pesquisas com as plantas. No fundo eu só queria fazer escolhas que não desagradassem ao Criador.


O tempo passou e Deus me presenteou com uma mulher linda. Me apaixonei dela e ela de mim. Prometi a ela ser 'uma só carne' na mistura com ela. Ela adorou a promessa que, convenhamos, não era nada original. Fato é que formamos uma família e, Deus nos abençoou com três meninos fortes. Sempre que tinha possibilidade, repetia as histórias que meu pai e o velho 'vô' me contaram. Gostava de chamá-los de 'meus moleques'.
'Meus moleques' levaram nomes que mudaram minha expectativa de futuro. Não queria mais ser levado para o céu. Gostava deles, estava cada vez mais apaixonado por minha mulher e achava nossa vida sensacional.  Não posso esquecer de dizer o nome deles três. Sem (nome de grande fama), Jafé (Deus te dê um lugar espaçoso) e Cão (queimado do sol), o mais moreno. Os três diziam que já estavam cansados de ouvir as mesmas histórias. Mas eu precisava repetir e fazer o máximo para que eles não fossem influenciados pela sociedade em que vivíamos. Acho que ser 'rotulado' de chato é o que acontece quando você está determinado a cumprir uma missão. Minha missão era preservar minha família. Cabeça dura, teimoso, metido a certinho eram alguns dos apelidos mais simpáticos que me davam. A realidade é que, quando saíamos para brincar na cachoeira, ou caçar um animal para fazer um assado aí eles gostavam. Gostavam da comida e até mesmo das histórias. Eu só ficava sabendo da 'zoação' dos vizinhos pelo que a minha esposa contava.
Quando eu tinha que enfrentar alguma dificuldade sempre fazia o mesmo que costumava fazer quando era criança. Eu ia para aquele monte e, sentado naquela árvore gigante, olhava o céu e conversava com Deus.
Num desses dias, eu quase caí do galho. Deus falou comigo. É. Isso mesmo que você leu. O grande Criador não apenas falou mas desabafou comigo. Eu já sabia que o mundo estava de mal a pior mas não tinha ideia de que o Criador estava tão decepcionado conosco. Na conversa, Deus revelou que iria salvar minha família, mas mesmo assim fiquei triste. Com uma lasca do tronco da árvore anotei todas as orientações que o Todo Poderoso me deu. Fui para casa e, naquela mesma noite, contei para todos de casa o que tinha acontecido e o que iria ocorrer.