16 de jan de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 3)


Muito dias na arca. Muitas tardes na arca. Muitas noites na arca. Quase um ano dentro daquele caixote. Oito pessoas e um 'zoológico inteiro' dentro daquele grande barco.
Quando a chuva parou parecia o começo do fim. Silêncio. Imenso silêncio lá fora da arca. O cheiro se intensificou com o calor do sol e, por mais que reclamássemos, não adiantava. Acho que acostumamos até com aquele cheiro... Tudo era monótono, tudo igual té que a arca parou. Não havia mais o sacolejo das ondas. Não havia mais a batida da água no casco do grande 'caixote' e a gritaria dos bichos depois de cada onda. Nós sabíamos que agora é uma questão de tempo. Mas, quanto tempo?
E a curiosidade, do que tinha ficado lá fora? Que realidade encontraríamos? Eram tantas questões, tantas perguntas, tantas dúvidas... Este foi o momento de maior expectativa.
Eu subia todos os dias para a parte mais alta da arca, pela manhã bem cedo, quanto todos ainda estavam dormindo e também no final do dia. Ficava lá, em silêncio, esperando a voz divina. Quase um ano na mesma rotina e nada. Todos os dias, numa teimosia de fé, fazia a mesma coisa. Foi quando num desses dias subi e percebi que bem perto de mim, no final da tarde estava um dos corvos que tínhamos na arca. Como gritava aquela ave de penas pretas. Resolvi, quase num impulso, deixá-lo ir. Abri a janela da arca e soltei o bicho. Ele foi e voltou. Comecei a rir baixinho de minha arrogância. Soltei ou, no fundo, fiquei com raiva e joguei fora o corvo que gritava e me irritava? Quando ele voltou, peguei o bicho de volta, olhei bem para os olhos pretos dele, que só de perto poderia ser observado, e assim comecei a mudar o ritual das tardes de reflexão. Eu subia pela manhã sozinho para ficar em silêncio, esperando a voz divina e à tarde, soltava o corvo. O corvo acabou virando meu companheiro. Foram vários dias nessa rotina. Soltava o bicho e ele voltava. Ele ia e voltava, ia e voltava. Logo comecei a observar que o tempo de voo estava se modificando. Numa manhã subi e, desta vez fiz diferente. Levei comigo uma pomba. Olhei o corvo mas resolvi mudar. Soltei a ave branca e ela demorou tanto quanto o último corvo, e voltou. Decidi esperar uma semana sem corvo e sem pomba. Tentei entender o que se passou. Depois desses sete dias, repeti a experiência com a pomba. Soltei a ave logo cedo e ela não retornou logo. Fique preocupado mas, quando minha esposa chamou para tomarmos café da manhã, deixei a janela aberta e fui cuidar das outras tarefas. Quando subi novamente, no final da tarde, lá estava a pomba entrando pela janela, naquele instante, com um ramo de oliveira em seu bico. Desci no mesmo instante gritando, com a pomba presa nas mãos e mostrando para todos a pomba e o ramo de oliveira que ela trazia no bico. Nos reunimos, refletimos e discutimos o que fazer. Sugeri que esperássemos mais uma semana para soltarmos a pomba novamente. Assim combinamos, assim fizemos. Soltamos juntos a pomba ainda pela manhã e à tarde subimos para aguardar o retorno do pássaro. A pomba não voltou. Frustração total. Sem pomba, sem sinal. Pedi para ficar mais um tempo sozinho e, por incrível que pareça, Deus falou:

Sai da arca, tu com tua mulher, e teus filhos e as mulheres de teus filhos.

Todo o animal que está contigo, de toda a carne, de ave, e de gado, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, traze fora contigo; e povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra. (Gn 8.16 e 17)

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