19 de jan de 2016

Na Primeira Pessoa - Noé (parte 5) final

Tudo estava perfeito. Olhava para trás, pensava na vida e relaxava. Era muita realização. A satisfação alimentava minha história e consolava minha velhice. Minha família reunida, os filhos dos meus filhos integrados no mesmo propósito, o mundo sendo reconstruído a partir de meu temor ao Senhor. Eu plantava e colhia. Eu dominava as aves, os répteis e os grandes animais também. Elaborávamos projetos pra lá de interessantes. Como já estava avançado em idade mergulhei na pesquisa. Inventava combinações, descobria alimentos curiosíssimos. Inventava molhos deliciosos. Num daqueles dias de colheita, estava com o cesto carregado e, para não deixar um cacho de uvas cair, estiquei a mão. No reflexo amassei o fruto. Confesso que fiquei triste por ter desperdiçado um pouco da colheita. Aproveitei, porque ninguém é de ferro, provei a gota que escorria na minha mão. Não sei porque aquele movimento tão natural, de lamber o sumo da fruta, me intrigou e estimulou. Resolvi pesquisar.
Desenvolvi e anotei este processo: Colher o fruto. Amassar a fruta, agora em maior quantidade e recolher o suco que ainda estava muito espesso num tonel de madeira. Este trabalho cansava tanto que deixei para o dia seguinte. Voltei e quando provei um pouquinho, percebi que ainda estava muito grosso. Tinha que pensar numa forma de separar o suco do bagaço. Pensei e no outro dia, com um tipo de rede bem trançada, filtrei e separei o bagaço que chamei de mosto. Provei um pouquinho, ainda estava muito forte. Ainda mais um dia até eu perceber que ainda havia casca da uva e ela havia subido. No quinto dia, coloquei mais água e filtrei agora com um pano bem limpo dentro de um recipiente com tampa. Nem me lembro porque, mas deixei o experimento de lado. Quando voltei dias depois, achei que tinha perdido o processo. Filtrei novamente o suco e ao provar me surpreendi com o sabor incomum que havia conseguido. Fui para tenda com um bocado daquele líquido e revi todo processo que havia anotado. Lia e bebia. Bebia e lia. Bebia, bebia e não conseguia parar de beber. A bebida era divina! É o fruto da vide, da vinha, por isso, mais tarde tornou-se o famoso vinho.


Bem que gostaria de terminar esse testemunho por aqui mas, infelizmente, tenho que dizer que o resultado dessa bebedeira fez com que eu perdesse completamente o controle. Nem me pergunte como aconteceu. Só descobri o que houve no dia seguinte, debaixo de uma dor de cabeça nunca antes vivida. Descobri, na verdade, sob testemunho de meus filhos que eu cheguei a ficar completamente nu, jogado dentro de minha tenda. O que aconteceu foi o seguinte: meu filho Cam, pai de Canaã, me viu naquele estado e se divertiu tanto que resolveu compartilhar com seus irmãos. Ainda bem que Sem e Jafé tiveram compaixão de mim e evitaram dano maior me compondo e retirando o líquido de perto.
A verdade é que ninguém cai se estiver sentado, ou pelo menos, muito flexível e alerta. Eu achava que estava no topo do mundo. Todos os seres humanos só se lembrariam de Noé, eu pensava. Até Adão ficaria esquecido. A história começaria com o meu nome e com o meu relacionamento com Deus. Cuidado! Todos os grandes danos começam da presunção. O orgulho precede a destruição. Antes da queda normalmente o coração se envaidece. Você deve estar pensando: Que forma dura de aprender! É verdade. Eu poderia passar sem essa, mas fazer o que, não é? Quem te disse que um homem de grandes feitos acerta sempre? Tome cuidado com suas grandes vitórias e fique com os pés no chão. Nunca perca de vista sua humanidade. Infelizmente acabei manchando a minha invenção mais extraordinária com o meu comportamento. Imagine o que seria de mim, qual seria a minha fama se eu tivesse me comportado?
Deus sempre faz tudo bem. Quanto a mim...sou Noé. O resto deixa pra lá!

Nenhum comentário:

Postar um comentário